All Must Go

Jazz XXI

4,5/5 Estrelas

Foi logo com a edição de (...), em 2010, igualmente pela Toneofapitch, que Nuno Costa deu provas de uma surpreendente maturidade musical como guitarrista e se revelou, acima de tudo, como um caso muito sério na qualidade de compositor. Afastando-se significativamente dos mais frequentes clichés do jazz moderno, a sua escrita apoia-se de forma determinante no conceito de composição “em extensão” a que neste texto me tenho referido. Costa soube, além disso, principalmente para a gravação deste seu segundo álbum, chamar os instrumentistas que, a ele se juntando na linha da frente do seu coletivo – o saxofonista João Guimarães, o trompetista João Moreira e, numa faixa apenas, um excelente músico que faz da voz o seu instrumento e que dá pelo nome de Rita Maria –, melhor seriam capazes de enriquecer a sua música também sob o ponto de vista tímbrico e textural.

 

A longa faixa de abertura de All Must Go não constituirá o melhor exemplo da diversidade típica da música de Costa, mas não deixa de encerrar motivos de sobra para nos prender o ouvido desde as primeiras notas tocadas pelo líder e por João Guimarães num uníssono propositadamente imperfeito, com a guitarra a afastar-se aqui e ali, e de servir como plataforma para belíssimos solos de sax alto, guitarra e piano, sendo de prestar grande atenção à complexidade do trabalho do baterista Marcos Cavaleiro ao longo de cada um dos referidos solos.

 

Com o dedilhar da guitarra de Nuno Costa, o palpitar do contrabaixo de Bernardo Moreira e o cavalgar da bateria de André Sousa Machado, a entrada da faixa-título aproxima-se de uma estética mais rockeira, mas nem por isso menos interessante, já que, à imagem de André Fernandes, Costa sabe filtrar e incorporar da melhor forma na sua música os mais diversos ingredientes provenientes da esfera da pop, como se verifica nesta faixa e, de forma ainda mais pronunciada, na que encerra o álbum – mas deixemos o final para o fim... E ainda a propósito de “All Must Go”, não poderia deixar de referir o inestimável contributo de João Moreira, não apenas em termos individuais, com aquele som inconfundível de trompete sonhador, tocado tanto com a mão e com a boca como com o pé, mas na forma como articula com o sax de João Guimarães ao longo da maior parte de um tema no qual é difícil distinguir o que está escrito daquilo que é improvisado no momento, inclusivamente no que concerne à intrigante cadenza tocada pelo pianista Óscar Graça que antecede a explosão final, que é – essa sim – escrita com o tipo de precisão e mestria com que um joalheiro trabalha a mais fina filigrana.

 

“12 Trabalhos” é alvo de uma breve introdução, na qual o líder fica de fora e em cujo início vale a pena prestar muita atenção ao trabalho do contrabaixista Demian Cabaud, cada vez mais precioso no uso do arco, ao lado de Guimarães. Com a entrada do tema propriamente dito, preparado através de um interessante desenho rítmico pela guitarra de Costa, passam novamente a estar em destaque o trompete e o sax alto, a eles se seguindo um belíssimo solo de guitarra onde se alternam interessantes passagens assentes num fraseio mais staccato com outras de fluência assinalável, antes do regresso dos dois sopros para um duelo de bons amigos, líricos e afáveis, mas nem por isso menos desafiantes.

 

Tão bom é tudo o que se passa em “Don’t Ask!” que pouco sentido fará o destaque de qualquer prestação individual, embora seja irresistível referir a originalidade do trabalho de Sousa Machado no suporte do solo de piano e a forma portentosa como conduz o clímax construído por todo o grupo durante o último minuto e meio desta longa (10:39) e interessantíssima peça.

 

“Gone For The Weekend” consegue, porventura, ser a faixa mais fascinante de todo o disco. Antes de mais, há que referir a lírica improvisação de Bernardo Moreira, com uma imaginação melódica invejável e com uma precisão na forma como agarra cada nota extremamente difícil de conseguir num instrumento como o contrabaixo. A isso se segue a melhor improvisação até hoje gravada por Nuno Costa, uma verdadeira delícia de construção do princípio ao fim – um solo que cresce em emoção ao longo de todo o seu desenvolvimento e que constitui, por si só, motivo mais do que suficiente para colocar o seu autor bem na linha da frente dos guitarristas nacionais.

 

O disco encerra com uma reprise da faixa-título que conta com a presença de Rita Maria, também responsável pelo poema – “Quem Me Impede De Voar” – que aqui canta. Pelo que aqui se ouve, a resposta é bem clara: ninguém poderá impedir uma cantora com estes atributos de voar até bem longe e na direção ou no sentido que bem lhe apetecer. Rita Maria é, sem dúvida, uma cantora de quem muito deverá falar-se nos tempos que aí vêm. Resta apenas esperar que levante voo de uma vez por todas...

 

All Must Go será, garantidamente (e logo após Motor, de André Fernandes, e a par de Velox Pondera, de Óscar Graça), um dos grande discos nacionais – e talvez não só – de 2012. Resta esperar que seja desta que o nome de Nuno Costa se torne alvo do reconhecimento de que se tem provado merecedor desde o seu primeiro álbum.

https://sites.google.com/site/jazzxxiproject/CRITICAS/nuno-costa-e-ap

Ípsilon - Jornal Público

3,5/5 Estrelas

"...No caso de Nuno Costa que apresenta o disco All Must Go, estamos num patamar diferente. Este é já o segundo disco do guitarrista, que se faz acompanhar por um conjunto de colaboradores do topo da cena nacional. Esta música é mais contrastante, fruto das composições - mais coloridas, mais ricas - mas também pela interpretação generosamente mais aberta. Ao lado de Costa estão músicos que já o acompanham desde o primeiro disco (João Guimarães no saxofone, Óscar Graça no piano, Bernardo Moreira no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria), juntando-se a estes ainda Demian Cabaud no contrabaixo e André Sousa Machado na bateria (alternadamente). Contudo, o grande trunfo do grupo acaba por ser o joker João Moreira, no trompete, que acrescenta uma outra dimensão à música do grupo, expandindo-a com enorme fluidez. O álbum conta ainda com a participação da cantora Rita Maria num tema (e apresentando a sua óptima voz), diversificando ainda mais a amplitude desta música." 

http://www.publico.pt/roteiros/jornal/discos-25305101
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